Multiculturalismo no ambiente de trabalho
Nelson Gurgel tem 10 anos de “estrada” em Marketing e estudou Assimilação Cultural no Mestrado em Pesquisa de Mercado na University of Westminster. É apaixonado por novas tecnologias e mídias sociais. Trabalha atualmente em uma agência de localização em Londres e tem muitas saudades do Brasil.
Considero que gerenciar pessoas não é nada fácil. São muitos fatores em uma equação com diversas variáveis e constantes. No Brasil, alem das diferentes características e estilos pessoais há também a influência geográfica que molda, de certa forma, alguns padrões de comportamento. Empresas brasileiras, normalmente lidam com pessoas de vários estados sejam fisicamente no mesmo escritório ou espalhados do Oiapoque ao Chuí. Nesse contexto, temos que lidar com algumas diferenças como sotaques, vocabulários e costumes. Mas no final essas supostas diferenças convergem a um mesmo ponto: somos todos brasileiros.
Descobrimos então que somos mais parecidos do que necessariamente diferentes. Em cidades ditas cosmopolitas como Londres e Nova York, há uma variável que precisa ser adicionada à essa equação. Essa variável chama-se multiculturalismo.
Trabalho em uma empresa americana em Londres e convivo com esse “melting pot”’ de culturas diariamente. Somos mais de 100 pessoas no escritório de Londres onde cerca de 75% são estrangeiros como eu. Todo esse “povo” sob gerência geral americana.
Em um ambiente como esse, temos que lidar diariamente com situações e comportamentos que precisam, muitas vezes, serem entendidos do ponto de vista cultural. Na minha equipe tenho três pessoas que reportam diretamente para mim. Os países representados são: Bangladesh, Portugal, Índia e Brasil. Tem sido um grande aprendizado nos últimos anos. Apesar de todos morarmos fora de nossos países de origem há algum tempo ou convivermos nesse ambiente multicultural por alguns anos, há traços em nossas personalidades que não mudam. Até mesmo ao falar inglês é possível distinguir esses traços. Isso se reflete também nos emails pois, como não temos o inglês como a primeira língua, nos expressamos diferentemente. Ocasionalmente, o que está escrito pode tomar várias conotações dependendo da nacionalidade de quem está lendo. Essa interpretação dúbia, como é de se esperar, pode gerar grandes mal entendidos.
O papel do gerente em ambientes como esse toma outra dimensão. Temos que lidar cautelosamente com certas situações. Presenciei vários problemas de relacionamento que foram causados simplesmente pelo fato do gerente não levar os fatores culturais em consideração. Obviamente, que há certas regras corporativas a serem seguidas. Mas o mais importante é entender a origem de um determinado comportamento e lidar com esses conflitos positivamente e até mesmo criativamente.
No inicio de 2010, por exemplo, contratamos uma assistente de projetos que tinha origem mulçumana e seguia alguns costumes “a risca”. Entre eles, estava a prece diária. Em seu primeiro dia ela deixou claro que isso não era negociável. Tivemos que reservar umas das salas de reunião para que ela, diariamente, pudesse fazer suas preces. Sem falar que as preces aconteciam em um determinado horário independentemente de uma reunião pré-marcada ou um projeto urgente que acabara de chegar. Esse caso gerou certa polêmica, já que tivemos que fazer algumas concessões para acomodar essas “peculiaridades”.
Muitos colegas achavam que era um absurdo ser tão flexível e outros achavam que essa flexibilidade fazia parte de um ambiente multicultural. Isso, na verdade, é um assunto que precisa de uma discussão maior em outro momento. O mais importante aqui e exemplificar como diferenças culturais podem ter impacto considerável no ambiente de trabalho e como torna o gerenciamento de pessoas mais desafiador.
Além desse caso, posso citar muitos outros: horário de almoço estendido na Espanha, necessidade de criar cartão de visitas para todas as pessoas no escritório da China e decoração de natal que não tenha nenhuma conotação religiosa para não ofender determinadas pessoas, entre outros.
Não sei se ou quando esse ambiente multicultural chegará a empresas brasileiras. Mas acredito que aquelas com pretensões de expansão para mercados internacionais terão que vislumbrar esses desafios no futuro. O fato é que qualquer que seja a situação criada pelo multiculturalismo, o diálogo e o “jogo aberto” são sempre os melhores meios de chegar a uma solução. Afinal, trabalhar em tais ambientes é extremamente proveitoso.
Nelson Gurgel
Twitter: @NelsonGurgel
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Nelson, parabéns pelo texto. Acredito que esse tema estará
cada vez mais presente nas agendas das empresas. Em algumas das
grandes empresas nacionais, começou com o desafio de conduzir a
expansão internacional das suas operações, obrigando a gestores e a
área de RH a adotarem uma visão e postura mais sensível ao
multiculturalismo. Quem sabe, com o desenvolvimento contínuo do
país, caminharemos para sermos membros dessa grande aldeia global.
Obrigada! Claudia Klein
Obrigado, Claudia. Eu acredito que um dia teremos certo multiculturalismo em empresas brasileiras. Nelson
Nelson, Achei super interessante esse ponto multicultural
que você presencia em Londres, pode-se dizer que o Brasil ainda não
agregou para essa nova forma de gestão e/ou preocupação com esses
“atropelos” culturais. Acredito que a unica capital proxima desse
passo seria a nossa grande São Paulo, onde temos um numero
acentuado de multinacionas.
Fabio, Obrigado pelo comentario. Talvez nao ainda no
ambiente de trabalho, mas medias e grandes empresas Brasileiras ja
estao lidando com o multiculturalismo de uma forma ou de outra. Por
exemplo, empresas que compram insumos da China. Abracos.
Nelson
Nelson cada dia que passa tenho mais ORGULHO de vc. Esta sua criação da Salada Corporativa tem tudo a ver com seu mundão. Acredito que tudo isto que vc aprendeu, passou e viveu vc vai colher GRANDES FRUTOS. Parabénssssssssss.I LOVE YOU..bjos
Prezado Nelson:Salve!
Interessante sua experiência sobre multiculturalismo. Curso Comunicação Organizacional na pós-graduação da USP e irei ministrar um seminário sobre esse tema no dia 22 próximo. Adoraria partilhar com minha classe mais experiências que você vivenciou nesse sentido de choque cultural. Se puder me dar um retorno sobre isso, agradeço-lhe imensamente.
Abraços e parabéns pelo seu blog, está muito legal!
Com apreço,
Jerusa
Ficamos felizes que o texto tenha lhe provocado este interesse. Peço que entre em contato com o Nelson através do Twitter: @NelsonGurgelb e do blog:www.nelsongurgel.blogspot.com .