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Ensopadinho Cultural

Alberto Correia é carioca, psicólogo e mestrando em Gestão de RH pela University of Westminster – Londres onde mora há quatro anos. Atuou em RH em diversas organizações e como Gestor de Desenvolvimento Institucional no terceiro setor . Como consultor autônomo, prestou serviços de consultoria em treinamento com ênfase nas áreas de atendimento e comercial para várias empresas. Atua como Consultor de RH da Cia. de Idéias – Teatro Empresarial , no desenvolvimento de produtos de teatro voltados para a estratégias de T&D, sendo ainda autor de textos teatrais para projetos empresariais.  Encontra-se em processo de retorno ao Brasil de onde finalizará a sua dissertação de mestrado.

Queridos leitores do Salada Corporativa, começarei o meu post de hoje com algumas referências teóricas que considero relevantes sobre o tema cultura.

Lévi-Strauss (1971) e Geertz (1973) destacam o papel da cultura de promover o compartilhamento de significados e entendimentos. Já Clements e Jones (2006) reforçam o seu aspecto de conhecimento e capacidades coletivas. Hall (1976) expressa o seu ponto de vista dizendo que a cultura é uma linguagem silenciosa sobre o tempo, espaço, coisas e contratos. Para Hofstede (2005), cultura é a programação coletiva da mente que distingue os membros de um grupo ou categoria de pessoas da outra, sendo a cristalização da História nas mentes, corações e mãos da presente geração.

Kroeber e Kluckhohn catalogaram 300 definições de cultura e as agruparam da seguinte maneira: comportamento aprendido, compartilhamento de valores, processo dialético e processo interativo.

Mas, nos dias de hoje quem domina as referências no campo de estudos de gestão é Hofstede. Seu trabalho é venerado fervorosamente assim como é criticado até a última palavra. Ainda assim, não há menor possibilidade de se estudar o impacto da cultura nacional nas organizações sem se deparar com citações do seu trabalho. Eu mesmo tenho o trabalho de Hofstede como ponto de partida da minha dissertação, mas não o defendo e sequer condeno. Pelo contrário, a pesquisa de Hofstede me incita uma grande questão: Qual é o impacto que preferências que um indivíduo carrega consigo de sua bagagem de cultura nacional sofrem quando esta pessoa passa a viver e trabalhar em outro sistema cultural?

Hofstede abriu uma enorme possibilidade de estudo ao mapear as dimensões culturais que diferenciam as sociedades, possibilitando um reconhecimento mais apurado da diferença nos modos de liderar, subordinar-se, decidir, resolver problemas, conceber o futuro. Porém a questão da aculturação, que é uma força presente e muito intensa nos processos de vivência em outro sistema cultural, não parece aprofundada na obra de Hofstede. Do ponto de vista da vida organizacional, a literatura existente e, abusadamente diria eu, nas discussões entre os profissionais de RH, me parece ainda bastante incipiente. Vale uma visita ao site do Hofstede (http://www.geert-hofstede.com) para conhecer as dimensões culturais usadas para comparar os países, incluindo o Brasil.

Tive várias experiências com aqueles trabalhos típicos de estudantes estrangeiros em Londres. Fui garçom, barista (faço um capuccino fantástico), entreguei correspondências, trabalhei como pesquisador bilíngue pelo telefone e em campo. Convivi com gente de todo canto: eslovacos, camaroneses, cipriotas, argelinos, irlandeses, ingleses, ucranianos (uma colega que morava perto da usina de Chernobyl e tinha dores na cabeça – nem “Credicard” paga conhecer alguém tão raro, podem falar), angolanos, nepaleses etc e assim vai… Acreditem, as expectativas são diferentes!

A minha colega eslovaca, vinda de um país ex-comunista, adorava uma regra, coisas devidamente no lugar. Eu, pisciano e brasileiro me organizava ao máximo, mas as vezes deixava algo num lugar diferente e lá vinha ela me dizer que eu tinha feito algo errado. E o tom não era dos mais agradáveis. Era pessoal? Não. Ela falaria da mesma maneira com seus conterrâneos. Aprendi a lição e não é que um dia ela disse que eu era o melhor amigo dela em Londres?

Poderia falar de outras impressões sobre como cada nacionalidade se manifesta, mas vem algo que me irrita profundamente: estereotipação. Peguei essa “gastura”, como diz meu querido amigo Nelson Gurgel, de encontrar “trocentos” milhões de livros sobre “cultural management” dizendo como fazer negócios com cada país, como trocar cartões ou não trocá-los, o que falar e não falar, e toda a vez que via a parte sobre o Brasil tinha “ataques”.

Aliás, a minha cordialidade brasileira que me levava a cumprimentar todos com um sorriso quando chegava ao trabalho levou várias pessoas a me perguntarem por quê eu era tão feliz! Eu dizia que eu era brasileiro, se é que dizer isso esclarecia alguma coisa. Sim, também me perguntaram como era a nossa comida. Ia dizer o que? Falar da feijoada que no Rio é feita com feijão preto e em SP com feijão carioquinha? Da moqueca que na Bahia leva dendê e no Espírito Santo não? Mas o melhor debate mesmo era sobre a nossa aparência e eu sempre usava SP como exemplo: um monte de gente que parece japonês falando português com sotaque italiano. Eles ficavam impressionadíssimos. Deviam pensar Brasileiro é tão bom bonzinho…e exótico também…Parei de tentar nos definir.

Pessoal, eu sou um filho de portugueses que dança “o vira” como ninguém e samba até se “acabar”. Aqui nestas terras ainda onde me encontro, “background” é “background”. Os britânicos gostam de dizer que aqui é o “melting pot”. “They are wrong”. Não há “melting”, ou seja, real mistura dos grupos culturais. Já morei num bairro cheio de muçulmanos que só falavam com mulçumanos e onde havia também muitos poloneses que sempre estavam juntos e brasileiros que comiam churrasco no “garden” e ouviam pagode. Londres é isso, um “stew”. O “stew” é o nosso ensopadinho. Tem um monte de coisa lá, tá todo mundo no mesmo pote, sob a mesma temperatura, no mesmo caldo, mas com texturas e cozimentos diferentes, com cores e sabores distintos a olho nu.

O Domenico De Masi certa vez disse que o Brasil tem o maior potencial social para uma cultura verdadeiramente e no bom sentido globalizada. Ele diz que nós tupiniquins já somos um produto espontâneo da miscigenação e que a nossa capacidade de “sincretizar” é natural e assim sendo tendemos a abraçar novas culturas com maior facilidade. Aqui nas “terras da Rainha”, em muitos casos, acontece diferente. As pessoas mantém sua forma de vestir, agir, discernir e socializar como faziam em seus países. E os britânicos nisso? Gastam fortunas em “take away”  indiano, chinês, italiano, turco e outras iguarias de algumas das suas inúmeras ex-colônias.

Na tv os entrevistados da BBC são sempre nascidos no país, mesmo que tenham aparência estrangeira. Nunca vi estrangeiro, com sotaque de estrangeiro, falando em inglês para uma entrevista do telejornal. Mais, nunca nenhum colega do meu mestrado me perguntou qualquer coisa sobre como fazemos RH no Brasil. Intercâmbio cultural? De mão única sim e inglesa!

A questão da cultura nacional influenciando a vida organizacional tem hoje e terá cada vez mais relevância. Soarei ultrapassado ao dizer que a globalização quebrou as barreiras entre países, por outro lado é inegável que a grande questão do mundo corporativo e até geopoliticamente falando é a última e complexa barreira, a cultural. Chegamos a qualquer lugar pelas telecomunicações, o tempo é cada vez mais agora, a distância é cada vez mais perto, a presença é cada vez mais onipresente, mas a intersubjetividade é cada vez mais desafiante. Estamos cada vez mais em contato com as outras “tribos” e nos deparamos mais e mais com o diferente e, como última consequência, mais pensativos sobre quem nós somos.

Londres para mim é isso, um encontro com culturas que me levaram a abrir as minhas malas e descobrir que havia trazido muito mais do que pensava. Descobri que como diz Ferzana Riley: “o meu mundo não é um lugar, mas pessoas”. Principalmente aquelas que estão no Brasil…

Até o próximo post!

Alberto Correia

albertojmcorreia@uol.com.br

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Comentários
to “Ensopadinho Cultural”
  1. Antonio Linhares disse:

    Alberto,
    O pai do Chico Buarque, o saudoso Sergio Buarque de Holanda, já falava em seu clássico raízes do Brasil sobre o “Homem Cordial”, símbolo do brasileiro e que nada mais era do que o ser relacional que todos nós somos. Por outro lado, segundo Roberto DaMatta, a nossa capacidade relacional pretende ligar como força, sugestividade e inigualável desejo, o alto com o baixo, o céu com a Terra, o santo com o pecador, o interior com o exterior, o fraco com o poderoso, o humano com o divino e o passado com o presente. Afinal, conviver com os opostos é uma arte. E é esta a base de nossa arte de administrar e o eixo de nosso diferencial. Temos que fortalecer como nunca esse diferencial !
    Obrigado por mais um excelente “post”!

    • Alberto Correia disse:

      Oi Antonio!! Valeu pelo comenário! Temos mesmo que nos tornar cada vez mais conscientes dos nossos diferenciais e a partir disso a nossa identidade. Vamos seguindo, vc nos seus ótimos posts e eu por aqui! Grande abraço!

  2. Beto, ótimo post!
    Ao longo da minha viagem, também tenho percebido a esteriotipacão das pessoas com base nas suas nacionalidades. Erro que muitas vezes nós também cometemos… E como é rico conhecer as individualidades de cada um! E mais rico ainda, é absorvermos, mesmo que só um pouquinho, das virtudes de cada povo e pessoa…
    Estou aguardando o próximo post!
    Bj grande!

    • Alberto Correia disse:

      Oi Let! Pois é, como não ter curiosidade diante do direferente? Eu penso que a gente tem até o direito de, por vezes, não gostar do que encontra, mas a curiosidade de tentar compreender não pode ser perdida! Ótima viagem! Te vejo em Sampa! Mil bjos

  3. Silvana disse:

    Oi, Beto.

    Que maravilha ver autores tão importantes na minha formação presentes no seu post.
    Particulamente, eu não sou muito adepta do Hosftede. Também me incomoda um pouco a supremacia que ele obteve no campo.
    Prefiro a “teia de significados” do Geertz e até a fragmentação de identidades do Stuart Hall.
    Bem, mas são apenas algumas preferências acadêmicas.

    Parabéns por escrever um post que conseguiu unir uma referencial teórico consistente com casos práticos da sua trajetória.

    Bjs
    Silvana

    • Alberto Correia disse:

      Oi Silvana!! Eu também tenho várias questões com o modelo do Hofstede. Principalmente porque acho que o conceito de cultura dele é simplista e mecânico. Mas, acho que a principal deficiência dele, e meu maior incômodo, é que ele vê a cultura como algo permanente, não mutável. Sem contar todas as questões da fragilidade empírica da pesquisa na IBM como universalização das dimensões culturais. Mas, como aluno de mestrado, vejo nele uma oportunidade de refletir sobre esses mitos da literatura de management e buscar outras referências. To vendo que teremos que tomar um chopinho no Brasil para alongar esses papos! Gde bjo!

  4. Valéria Brahim disse:

    Beto,

    Quero deixar registrado a todos que leem seus posts que eu estudei com vc. E mais que sou sua amiga. Que orgulho!!!!
    Cultura e modos diferentes de ver o mundo é algo que me atrai desde meus tempos de convivência com os indígenas, aqui mesmo no nosso Brasil.
    Aguardo ansiosa pelo próximo post.
    Obrigada pela delícia de leitura!!
    Bjs, Valéria

    • Alberto Correia disse:

      Queridíssima Valéria! O orgulho é meu de ter compartilhado com vc não só aqueles anos maravilhosos da faculdade, como também vários momentos profissionais e pessoais tão importantes de nossas vidas. Super obrigado pelo carinho de sempre!!!! Bjos

  5. arcenio filho disse:

    Querido amigo.
    É momento pra refletir, é momento do “vleu a pena”. Farias tudo novamente? Segundo sua citação de Hall(1976) – aliás, gostei muito – “a cultura é uma llinguagen silenciosa”, vou mais alem: diria que a cultura das etinias é como agua e oleo, cabem no mesmo recipiente, mas não se misturam. A. Filho(2008). Ceninho

    • Alberto Correia disse:

      Ceninho, meu querido! A reflexão tem sido intensa em Londres, principalmente neste último ano aqui. Londres será uma passagem valiosa na minha vida, mas as minhas raízes estão aí no Brasil e cada um de vcs, meus grandes amigos, são a minha sustentação de vida. Concordo com vc sobre o Hall, também é minha definição preferida: simples na escrita, complexa no conceito; poética até, mas profundamente verdadeira. Gde bjo!

  6. Andréa disse:

    Me convidem para “beber” destas fontes!!!
    Obrigada por compartilharem seus conhecimentos.
    Beijos fraternos em todos.

    Andréa

  7. Fátima disse:

    Durante aquelas nossas conversas na cozinha de sua mãe vc já imaginava tudo isso???
    Saudades!
    Bjs

  8. parabéns tenho muito orgulho de vc…

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